terça-feira, 4 de março de 2008

Entrevista ao Mestre Miguel Ricou (Impacto neurobiológico dos consumos)



Professor na Faculdade de Medicina do Porto, na área de Bioética e Ética Médica, membro fundador da Associação Portuguesa de Bioética e coordenador da Unidade de Ética e Psicologia do Serviço de Bioética e Ética Médica da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto; autor de diversos artigos científicos. É licenciado em Psicologia Clínica, Mestre em Bioética e doutorando na Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade de Coimbra



Dianova: Como podemos caracterizar, na sua opinião, a dependência de substâncias psicoactivas?
Mestre Miguel Ricou: É cada vez mais complicado falar de uma forma genérica em dependência de substâncias psicoactivas. Se é verdade que os comportamentos aditivos (CA) têm uma raiz comum, que passa pela incapacidade de resistir à obtenção de prazer de uma forma imediata (o que pode ter uma multiplicidade de causas), quer se trate de dependência a substâncias ou a outros comportamentos, a alteração do padrão de consumos no sentido de uma cada vez maior utilização de substâncias estimulantes tem vindo a alterar o padrão de consumos, já que estas substâncias são consumidas em contextos específicos, sendo mais dificilmente generalizáveis à vida global do indivíduo.
Deste modo, o padrão de dependência é diferente, sendo que se por um lado o consumo crónico pode ser menos perigoso, a intoxicação aguda é muito mais provável e arriscada. Seja como for, todas cabem na definição de Comportamentos Aditivos: comportamento repetido, mediado por um impulso incontrolável, com vista à obtenção de prazer ou alívio de desprazer, do qual resultam consequências negativas para o sujeito.


Dianova: Em termos bioéticos, pode-se considerar a toxicodependência como uma doença? Que tipo de doença: mental, comportamental, física? O que caracteriza uma doença?
Mestre Miguel Ricou: Não tenho dúvidas de que os Comportamentos Aditivos (prefiro este termo a toxicodependência) são uma doença, e como qualquer doença tem uma dimensão psicológica/comportamental, biológica e social. Encontramos, nestas 3 dimensões, uma série de variáveis que não podem ser controladas pela vontade do indivíduo – variáveis temperamentais, caracteriais, familiares, do ambiente social, bem como fisiológicas e genéticas. Para mim isso caracteriza uma doença: a incapacidade do indivíduo controlar todos os factores que condicionam a perturbação física, emocional ou comportamental. Podia dar-lhe aqui uma série de exemplos.
Contudo, e à semelhança do que acontece com uma série de perturbações mentais ou emocionais, é uma doença com características muito especiais: a maior delas é que o seu tratamento depende em grande, grande parte da vontade do indivíduo, pelo que se é uma doença, isso não deve ser trabalhado dessa forma com o indivíduo. Ou seja, devemos evitar que o indivíduo assuma o papel de doente, o que poderá levar a que assuma uma atitude mais passiva perante o problema, o que será inibidor do sucesso do tratamento. Mas se é um doente, tem todos os direitos de qualquer outro doente – esta é a perspectiva da bioética.


Dianova: No desenvolvimento do cérebro, e logo dos comportamentos, o tecido nervoso é modelado constantemente pela influência da experiência do indivíduo. Com que idade se torna o cérebro maduro (e, logo, menos permeável a alterações), havendo evidências que apontam para os 26 anos a idade em que o lobo frontal (zona que controla os impulsos) se torna maduro?
Mestre Miguel Ricou: É muito difícil responder a essa questão. A plasticidade cerebral diminui muito a partir dos 2, 3 anos de idade. Mas a capacidade de mudança mantém-se ao longo da vida. Se não acreditasse nisso não seria psicólogo clínico. Poderemos criar uma diferença entre temperamento e carácter sendo que o primeiro é claramente mais difícil de alterar. Ainda relativamente à questão da idade, existem inúmeros motivos que levam a que o consumo seja tão mais prejudicial em idades mais precoces. Acho que se poderia traçar uma proporcionalidade directa entre esses 2 factores. Desconheço esse estudo de que fala em termos tão objectivos. Seja como for, não deveremos é desenvolver a ideia de que o consumo depois dos 26 anos será isento de riscos. Que não será possível desenvolver uma dependência depois dessa idade. Naturalmente os riscos são menores por diversos factores, entre os quais uma estabilização dos ritmos de vida. Mas no mundo de hoje cada vez mais os períodos de crise na vida são mais frequentes, pelo que a possibilidade do surgimento de uma dependência aumenta nessas alturas.



Dianova: Cada tipo de comportamento humano parece estar ligado à concentração/libertação de uma determinada substância química: o controlo dos movimentos depende da dopamina, o sono da serotonina, a dor da endorfina, o prazer da adrenalina. Qual o impacto do consumo de drogas como a cocaína, o ecstasy ou a cannabis no comportamento?
Mestre Miguel Ricou: São substâncias diferentes e que por isso mesmo têm padrões diferentes de consumo. Aquilo que diz não é totalmente rigoroso, uma vez que os comportamentos que referiu não são condicionados apenas por cada um dos neurotransmissores que enumerou. Reduzir o comportamento do indivíduo à bioquímica cerebral pode originar um conceito determinista sobre o indivíduo que é perigoso e ultrapassado.
Para me referir em conjunto às substâncias só posso dizer que elas alteram os estados emocionais e por vezes de consciência, o que em indivíduos predispostos pode ser sentido como indutor de grande prazer. Da mesma forma, um indivíduo que consuma, por exemplo, inadvertidamente, ecstasy, poderá sentir-se muito mal. Os efeitos subjectivos das substâncias são centrais. Por isso mesmo os efeitos variam conforme as pessoas e os contextos de consumo, bem como com as quantidades.




Dianova: Um dos principais problemas relacionados com o consumo de drogas, como as depressoras ou estimulantes, é a dependência que gera. A nível neuroquímico, quais os factores – genéticos e epigenéticos – que concorrem para o comportamento aditivo?
Mestre Miguel Ricou: A nível neuroquímico temos factores como a sensibilização, a tolerância, a síndroma de abstinência, a memória neurobiológica, entre outros, que condicionam e interferem com os factores de dependência. Sabemos também dos desequilíbrios de base que algumas pessoas têm e que as predispõem mais facilmente para a dependência de algumas substâncias. Está demonstrada a evidência genética da dependência para o álcool. Mas mais uma vez, devemos evitar reduzir a dependência a estas dimensões.



Dianova: Se certas substâncias químicas sintéticas são capazes de modificar o funcionamento cerebral e mesmo provocar lesões neurológicas irreversíveis (e.g. ecstasy), quais as implicações a nível de saúde mental e do indivíduo a prazo?
Mestre Miguel Ricou: Sabemos que há substâncias que podem promover o aparecimento de perturbações mentais sérias. O consumo continuado de anfetaminas, como o ecstasy, provoca perturbações muito sérias e em boa parte irreversíveis ou pelo menos com grande dificuldade nesse sentido. O álcool provoca processos demenciais precoces. As perturbações de ansiedade e do humor são outra constante e quase transversais a todas as substâncias. Contudo, também aqui devemos ter em atenção as predisposições dos indivíduos. Aliás, por vezes, a dependência constrói-se como forma de tentar aliviar a sintomatologia psiquiátrica pré-existente.


Dianova: A reeducação cognitivo-comportamental demonstra ser capaz de modificar num adulto a forma do cérebro (leia-se engrama neuronal) e consequentemente os seus comportamentos. Concorda? Na sua opinião, que factores concorrem para esta mudança?
Mestre Miguel Ricou: Estou perfeitamente de acordo consigo. Tenho para mim que esse é o grande objectivo da psicoterapia CC – é, em última análise, a modificação dos comportamentos sentidos como negativos para o indivíduo – e que tal pode ser de facto conseguido. Numa perspectiva cognitivo-comportamental o grande objectivo é procurar uma congruência entre aquilo que o indivíduo sente, faz e pensa. Este desequilíbrio é, aliás, o que caracteriza as perturbações emocionais: aquilo que eu sinto não corresponde ao que eu penso ou à situação que eu estou a viver e é isso que me faz sentir perturbado. Aquilo que se tenta fazer é uma modificação do pensamento através de técnicas como o debate cognitivo e promover comportamentos adequados aos objectivos definidos. Desta forma pretende-se aumentar o controlo emocional por parte do indivíduo.


Dianova: Por último, tendo em conta as perturbações do humor que caracterizam certos estados da dependência, qual a importância das neurociências para a compreensão dos mecanismos cerebrais-comportamentais e quais os principais benefícios do desenvolvimento desta área científica no debelar da problemática da toxicodependência?
Mestre Miguel Ricou: As neurociências são centrais para aumentar a compreensão sobre o funcionamento dos processos mentais e deste modo, também dos CA. Seja como for, acho que é importante resistir à tentação dos determinismos biológicos sob pena de se perder o essencial da intervenção em saúde no geral e na saúde mental em particular: a compreensão global do indivíduo.
Entrevista para EXIT n. 14