quinta-feira, 28 de fevereiro de 2008

Entrevista ao Dr. George de Leon (Tratamento em Comunidade Terapêutica Profissional)

A Associação Dianova Portugal é uma I.P.S.S. (Instituição Particular de Solidariedade Social) e Associação de Utilidade Pública especializada na prevenção, tratamento e reinserção toxicodependências. Presente em Portugal desde 1984 como agente activo integrante da rede social, fundamenta a sua acção na convicção de que, com os meios adequados, cada pessoa pode encontrar em si mesma os recursos para alcançar o seu desenvolvimento pessoal e integração social.

Dr. George De Leon, especialista internacionalmente reconhecido no tratamento das toxicodependências, é Director do Center for Therapeutic Community Research em Nova Iorque e Professor de Psiquiatria na New York University (doutorado em Psicologia pela Columbia University)



Dianova: O que é a toxicodependência?
George De Leon: Nos EUA a toxicodependência é geralmente vista como uma perturbação ou doença. Decorrente da minha experiência, inclino-me mais para o termo perturbação. A perturbação consiste num uso compulsivo, repetitivo de substâncias, traduzindo-se em comportamentos destrutivos para o indivíduo e para terceiros. E porque há factores biológicos que podem contribuir para essa perturbação, torna-se necessária uma intervenção sobre esses comportamentos. Adicionalmente, há factores ou problemas multi-influenciadores que necessitamos de compreender ao olhar para este sintoma de falta de adaptação.

Dianova: A toxicodependência pode ser um sintoma de desadaptação do indivíduo à sociedade?
George De Leon: Eu escolho a palavra sintoma como um sinal de algo que está errado, podendo esse sinal reflectir factores biológicos, psicológicos, incapacidade do indivíduo em estabilizar-se emocionalmente, de lidar com experiências de vida que são propícias às drogas. Na última fase de adaptação à sociedade o indivíduo que explora o uso abusivo de substâncias vai enfrentar dificuldades para lidar com frustrações e exigências sociais, o que poderá levar a uma situação de adaptação ou desadaptação.

Dianova: Parece que o número de toxicodependentes na Europa está a aumentar.
George De Leon: Sabe, temos de ser cautelosos acerca de declarações deste tipo, talvez seja verdade na Europa, mas é necessário verificar primeiros os dados. Temos uma lacuna enorme nesta área e diversas formas de avaliar o aumento ou redução de toxicodependentes. Não tenho a certeza se devemos entrar na questão do crescimento ou não, digamos que está bastante disperso. E voltar a um modo alarmista de ver o problema, pelo menos nos EUA, nós não o aceitamos. A administração Bush está comprometida com a ideia de tratamento e prevenção da toxicodependência, sendo aceite como um problema de saúde social. Temos formas de analisar os custos da toxicodependência. A sociedade está claramente empenhada nesta problemática.

Dianova: Em que circunstâncias deve ser utilizado um tratamento de substituição opiácea, como parte de uma abordagem integrada?
George De Leon: A resposta é: como é utilizado? A forma como é utilizado agora nos EUA resulta de critérios mais rigorosos - ter mais de 18 anos e ser dependente de substâncias opiáceas durante dois anos - face ao critério inicial de administração após uma tentativa de tratamento falhado. Esta é a visão clássica da substituição opiácea: dois anos de consumo activo, fortes sinais de que o indivíduo era dependente e uma tentativa séria de tratamento sem drogas que não resultou, sendo então o indivíduo elegido para um tratamento farmacológico. Penso que, infelizmente, se tornou a primeira alternativa de tratamento, o que me preocupado bastante, havendo necessidade de uma gestão mais cuidadosa da sua administração.
E pondo de lado a política, a sua questão era: existe lugar para o tratamento farmacológico na abordagem do sistema? A resposta é: sim. Habitualmente começa com um cliente que não pode ser tratado, inicialmente em termos de ultrapassar algum processo de recuperação sem um auxiliar farmacológico. Eu não me importo de trabalhar com um indivíduo que alcançou o critério para esse tipo de tratamento; a minha preocupação é ter um indivíduo com metadona, podendo ou não tentar outro tipo de tratamento, tendente a uma recuperação completa. Haverá que avaliar continuamente o que os indivíduos necessitam para passar para uma próxima fase de recuperação, mesmo com metadona.

Dianova: Qual o tratamento mais eficiente?
George De Leon: Essa pergunta tem que ser reformulada se tivermos em consideração o que está na base da eficácia das principais abordagens de tratamento, que reclamam eficiência científica: um tratamento farmacológico como a substituição opiácea, como a metadona, tem uma boa base científica uma vez que bloqueia a heroína e produz resultados de melhoria a nível do trabalho, emprego, comportamento adequado do indivíduo. A C.T. é outra abordagem comprovada ao ver-se assegurado o aconselhamento ao paciente a prazo, assegurando-se um tratamento adequado, constituindo a demonstração de que é uma abordagem com provas evidentes a nível de - estratégias de comportamento, estratégias de entrevistas motivacionais, intervenções breves - que mostram que se podem conseguir melhorias significativas. O problema dessa questão é que o que sabemos claramente é que os tratamentos funcionam, sendo mais eficazes para certos indivíduos e para certas etapas da sua recuperação.

Dianova: Comente as diferenças entre o modelo Americano e o modelo Europeu.
George De Leon: Há países em que os tratamentos de substituição estão a ser melhor implementados do que nos EUA, em que manifestam um claro interesse na reabilitação psicológica e social que vai para além do que a metadona oferece. Quando se entra no tratamento em Comunidade Terapêutica, a grande distinção relaciona-se com a abordagem democrática-psicanalítica (e.g. modelo Jones, orientado às perturbações de personalidade) e a baseada em conceitos (para tratamento de dependências de substâncias). Enquanto que na Europa existe mais uma mistura dos dois; nos EUA vê-se sobretudo a abordagem de C.T., mas verificam-se alguns indicadores encorajadores de re-aproximação destas duas abordagens.

Dianova: Qual o maior desafio que se coloca à abordagem da C.T.?
George De Leon: Através da pesquisa e da experiência clínica percebemos agora que em certos tipos de perturbações um novo consumo de drogas pelos indivíduos que se encontram no processo de recuperação não é algo inesperado. A grande questão é a reorientação, o grande desafio é a recuperação do processo, não abandonarmos o toxicodependente, e porque ocorre temos que compreendê-lo. Isso pode ser utilizado para facilitar a recuperação ensinando ao indivíduo o que pode aprender acerca da sua recuperação.

Dianova: Falar em sociedade livre de drogas: um conceito sem esperança?
George De Leon: Nós devemos esperar que hajam sempre pessoas envolvidas em drogas destrutivas. Quantos? Que proporção? Se o mundo está empenhado em combatê-las? Temos uma geração inteira de que se espera automaticamente que venha a ser dependente de drogas, o que é totalmente inaceitável, não o deveríamos tolerar, dai a minha insistência no factor escola. Creio que deveríamos ser muito agressivos: enquanto a droga estiver disponível e facilmente acessível vão existir baixas. Urge encontrar melhores mecanismos, mecanismos sociais, que ajudem a construir a fortalecer a imunidade.

Dianova: Um conselho para os decisores políticos.
George De Leon: Os governantes deverão estar abertos a propostas acerca da reorganização do tratamento da toxicodependência, numa abordagem de sistema integrado. Como resolvemos a questão da droga? Há que reformular a forma como concebemos o tratamento da toxicodependência nos termos de uma abordagem de Sistema Integrado e não esquecendo a necessidade de prevenir, em particular, como nos tornamos imunes.
Esta entrevista foi realizada 16 de Setembro no consultório do Dr. De Leon, em Nova Iorque, com a colaboração de Dave Breckenride, Dianova USA. Foi publicada na edição nº 3 da EXIT, Jan-Mar de 2005.


http://www.dianova.pt/index.php?option=com_content&task=view&id=127&Itemid=131

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