quinta-feira, 8 de maio de 2008

terça-feira, 6 de maio de 2008

Marcha Global Marijuana 2008

No passado dia 3 de Maio, realizou-se em Lisboa, e em mais 237 cidades do mundo, uma marcha a favor da legalização da marijuana(cannabis). A marcha contou com apoiantes na sua maioria da faixa etária dos 16 aos 30 anos. Teve ínício no largo do Rato e contavam-se cerca de 100 pessoas, mas ao longo do percurso foi aumentando a adesão chegando a cerca de 600 pessoas no final da marcha no largo Camões. As mensagens que os apoiantes transpotavam eram na sua maioria argumentos a favor da legalização desta planta, que tal como estava escrito num dos cartazes, "esta planta também foi Deus que fez". Algumas outras mensagens eram: "Comprar? Plantar!","É ilegal porquê?", "Legalização!"...
O eurodeputado Miguel Portas foi um dos convidados para discursar no final da marcha. Duas das frases que disse, uma de afronta ao governo e à população e outra de paz, foram: " Só vejo duas coisas para não ser legal em Portugal - a hipocrisia e a ignorância" e " Se querem acabar com alguma coisa acabem com a guerra!".
Outro convidado foi o Professor universitário e activista António Elloy que proferiu frases a favor da liberdade individual, intimamente ligada com esta questão: " Nós fazemos o que queremos com o nosso corpo desde que devidamente informados ao que estamos sujeitos"(frase do professor) e consolidou a ideia de que é a adulteração das drogas e não as drogas que estão a criar problemas de saúde.
Por último, falou um jovem da entidade organizadora da marcha (COM.maria) que defendeu a liberdade individual em busca da liberdade colectiva, apelou a campanhas de pervenção e de informação para que esta planta possa vir a ser legal e por último pôs a questão, "o que será melhor? Manter uma rede de tráfico corrupta que mexe com a economia de um país ou permitir o autocultivo que diminui bastante o tráfico e elimina a adulteração das drogas". Outros argumentos por parte dos apoiantes da legalização da marijuana estão no link: http://www.mgmlisboa.org/index.php?option=com_content&task=view&id=46&Itemid=73.
Este ano, chega ao fim o prazo de 10 anos estipulado pelas Nações Unidas com a sua Estratégia para acabar com o tráfico de drogas no mundo. Segue-se um ano de reflexão em que se vai analisar qual o impacto do acordo assumido pelas Nações Unidas e se, realmente, os objectivos de reduzir significativamente a procura e oferta de drogas foram atingidos.
De acordo com todos os relatórios oficiais, esta estratégia e as sucessivas políticas de combate às drogas falharam rotundamente, apesar dos milhões gastos com este tipo de iniciativas.
Por isto, os cidadãos apoiantes, exigem que se mude de estratégia.

terça-feira, 15 de abril de 2008

Influência da idade no consumo de drogas

Antigamente, o consumo de drogas estava associado aos rituais de iniciação, aos ritos de passagem que acompanham o desenvolvimento da psique facilitando as suas transformações. Com o tempo estes rituais, como são hoje o baptismo , o casamento, os rituais da puberdade, entre muitos outros diferentes de acordo com cada cultura, foram perdendo sua força e significado, levando assim a experiências destrutivas.
Como se pode constatar a partir do gráfico o número de consumidores de drogas começa a aumentar a partir dos quinze anos, idade em que o numero de consumidores de drogas é praticamente nulo.
Quanto aos jovens com dezasseis anos, já se começa a revelar um aumento do número de consumidores e chegando mesmo a igualar o número de consumidores e não consumidores relativamente a jovens com dezassete anos.
Relativamente a jovens com idade superior a 17 anos, praticamente ja não existem aqueles que não consomem ou nao tiveram hábitos de consumo de qualquer tipo de drogas até então.
Estes dados tornam-se alarmantes caso os jovens que consomem nestas idades não deixem de consumir, uma vez que as relações com a sociedade podem nunca mais vir a ser as mesmas.

terça-feira, 8 de abril de 2008

Drogas nas Escolas

Os adolescentes de hoje estão mais sujeitos ao contacto com as drogas. O ambiente, as companhias erradas, tudo favorece o contacto e as primeiras experiências com as drogas. Como é evidente o ambiente mais frequentado pelos adolescentes são as escolas, onde se regista um significativo aumento do consumo de drogas (principalmente haxixe e cannabis) nos últimos anos.
Com isto já foram tomadas medidas por parte da PSP, no âmbito do programa "Escola Segura", fez 497 detenções nas imediações de vários estabelecimentos de ensino, envolvendo tráfico de estupefacientes. Nem sempre, e nomeadamente no caso das detenções e apreensões de droga, estão em causa alunos dos estabelecimentos de ensino. Porém, tudo aconteceu muito próximo das escolas, em cenários em que "a ocasião pode fazer o ladrão".
Para termos consciência do que se passa na nossa escola relativamente a este assunto fizemos um inquérito, do qual obtivemos os resultados acima apresentados, que deveriam alarmar para a colocação em prática de novas medidas por parte das devidas entidades.
Contudo, achamos que em termos judiciais as medidas tomadas deviam ser mais ponderadas relativamente às actuais medidas, pois um registo criminal num adolescente pode comprometer o seu futuro como cidadão e trabalhador.

terça-feira, 1 de abril de 2008

Efeitos do consumo de Haxixe

Apesar de ser uma droga leve, a “cannabis” (a planta que dá origem ao haxixe) não deixa de ser uma droga e provoca, para além da alteração do estado de consciência, vários efeitos secundários prejudiciais, que variam em função das doses, da potência da cannabis utilizada, da maneira como é fumada, do estado de ânimo e das experiências anteriores com esta droga.
Sintomas a curto prazo

Sintomas e sinais físicos: aumento da frequência cardíaca. Aumento da pressão arterial sistólica quando se está deitado e a sua diminuição quando se está de pé. Congestão dos vasos conjuntivais (olhos vermelhos) e dilatação dos brônquios, diminuição da pressão intra-ocular, foto-fobia, tosse, diminuição do lacrimejo.
Sintomas psíquicos: euforia, que aparece minutos depois do consumo. Sonolência. Os pensamentos fragmentam-se e podem surgir ideias paranóicas. Intensificação da consciência sensorial, maior sensibilidade aos estímulos externos. Instabilidade no andar. Alteração da capacidade para a realização de tarefas que requeiram operações múltiplas e variadas, juntando-se a isto reacções mais lentas e um défice na aptidão motora, que persistem até 12 horas depois do consumo. Isto provoca uma considerável interferência na capacidade de condução de veículos e outras máquinas.
Efeitos a longo prazo

Efeitos físicos: nos fumadores produz bronquite e asma. O risco de contrair cancro do pulmão é maior, devido ao fumo ser inalado de uma forma mais profunda. Os filhos das mulheres consumidoras crónicas podem apresentar problemas de comportamento. Produz alterações na resposta imunológica, apesar da sua importância clínica ser desconhecida.
Efeitos psíquicos: nos fumadores crónicos, o consumo pode provocar um empobrecimento da personalidade (apatia, deterioração dos hábitos pessoais, isolamento, passividade e tendência para a distracção). Esta situação é semelhante à dos consumidores crónicos de outras drogas depressoras. Alguns autores denominaram-na como "síndrome amotivacional", mas hoje em dia, devido à falta de especificidade nas alterações que descreve, este termo caiu em desuso.
Dependência

Provoca uma síndrome de abstinência leve (ansiedade, irritação, transpiração, tremores, dores musculares). A tolerância em relação aos efeitos da droga só ocorre nos grandes consumidores. Já que o seu mecanismo de acção no sistema nervoso se faz através de receptores específicos, não existe tolerância cruzada com nenhuma outra droga.
Tendo em conta o elevado número de pessoas que consomem derivados da cannabis, são muito poucas as que procuram ajuda para deixar o consumo, facto que indica o seu escasso poder de dependência.

terça-feira, 4 de março de 2008

Entrevista ao Mestre Miguel Ricou (Impacto neurobiológico dos consumos)



Professor na Faculdade de Medicina do Porto, na área de Bioética e Ética Médica, membro fundador da Associação Portuguesa de Bioética e coordenador da Unidade de Ética e Psicologia do Serviço de Bioética e Ética Médica da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto; autor de diversos artigos científicos. É licenciado em Psicologia Clínica, Mestre em Bioética e doutorando na Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade de Coimbra



Dianova: Como podemos caracterizar, na sua opinião, a dependência de substâncias psicoactivas?
Mestre Miguel Ricou: É cada vez mais complicado falar de uma forma genérica em dependência de substâncias psicoactivas. Se é verdade que os comportamentos aditivos (CA) têm uma raiz comum, que passa pela incapacidade de resistir à obtenção de prazer de uma forma imediata (o que pode ter uma multiplicidade de causas), quer se trate de dependência a substâncias ou a outros comportamentos, a alteração do padrão de consumos no sentido de uma cada vez maior utilização de substâncias estimulantes tem vindo a alterar o padrão de consumos, já que estas substâncias são consumidas em contextos específicos, sendo mais dificilmente generalizáveis à vida global do indivíduo.
Deste modo, o padrão de dependência é diferente, sendo que se por um lado o consumo crónico pode ser menos perigoso, a intoxicação aguda é muito mais provável e arriscada. Seja como for, todas cabem na definição de Comportamentos Aditivos: comportamento repetido, mediado por um impulso incontrolável, com vista à obtenção de prazer ou alívio de desprazer, do qual resultam consequências negativas para o sujeito.


Dianova: Em termos bioéticos, pode-se considerar a toxicodependência como uma doença? Que tipo de doença: mental, comportamental, física? O que caracteriza uma doença?
Mestre Miguel Ricou: Não tenho dúvidas de que os Comportamentos Aditivos (prefiro este termo a toxicodependência) são uma doença, e como qualquer doença tem uma dimensão psicológica/comportamental, biológica e social. Encontramos, nestas 3 dimensões, uma série de variáveis que não podem ser controladas pela vontade do indivíduo – variáveis temperamentais, caracteriais, familiares, do ambiente social, bem como fisiológicas e genéticas. Para mim isso caracteriza uma doença: a incapacidade do indivíduo controlar todos os factores que condicionam a perturbação física, emocional ou comportamental. Podia dar-lhe aqui uma série de exemplos.
Contudo, e à semelhança do que acontece com uma série de perturbações mentais ou emocionais, é uma doença com características muito especiais: a maior delas é que o seu tratamento depende em grande, grande parte da vontade do indivíduo, pelo que se é uma doença, isso não deve ser trabalhado dessa forma com o indivíduo. Ou seja, devemos evitar que o indivíduo assuma o papel de doente, o que poderá levar a que assuma uma atitude mais passiva perante o problema, o que será inibidor do sucesso do tratamento. Mas se é um doente, tem todos os direitos de qualquer outro doente – esta é a perspectiva da bioética.


Dianova: No desenvolvimento do cérebro, e logo dos comportamentos, o tecido nervoso é modelado constantemente pela influência da experiência do indivíduo. Com que idade se torna o cérebro maduro (e, logo, menos permeável a alterações), havendo evidências que apontam para os 26 anos a idade em que o lobo frontal (zona que controla os impulsos) se torna maduro?
Mestre Miguel Ricou: É muito difícil responder a essa questão. A plasticidade cerebral diminui muito a partir dos 2, 3 anos de idade. Mas a capacidade de mudança mantém-se ao longo da vida. Se não acreditasse nisso não seria psicólogo clínico. Poderemos criar uma diferença entre temperamento e carácter sendo que o primeiro é claramente mais difícil de alterar. Ainda relativamente à questão da idade, existem inúmeros motivos que levam a que o consumo seja tão mais prejudicial em idades mais precoces. Acho que se poderia traçar uma proporcionalidade directa entre esses 2 factores. Desconheço esse estudo de que fala em termos tão objectivos. Seja como for, não deveremos é desenvolver a ideia de que o consumo depois dos 26 anos será isento de riscos. Que não será possível desenvolver uma dependência depois dessa idade. Naturalmente os riscos são menores por diversos factores, entre os quais uma estabilização dos ritmos de vida. Mas no mundo de hoje cada vez mais os períodos de crise na vida são mais frequentes, pelo que a possibilidade do surgimento de uma dependência aumenta nessas alturas.



Dianova: Cada tipo de comportamento humano parece estar ligado à concentração/libertação de uma determinada substância química: o controlo dos movimentos depende da dopamina, o sono da serotonina, a dor da endorfina, o prazer da adrenalina. Qual o impacto do consumo de drogas como a cocaína, o ecstasy ou a cannabis no comportamento?
Mestre Miguel Ricou: São substâncias diferentes e que por isso mesmo têm padrões diferentes de consumo. Aquilo que diz não é totalmente rigoroso, uma vez que os comportamentos que referiu não são condicionados apenas por cada um dos neurotransmissores que enumerou. Reduzir o comportamento do indivíduo à bioquímica cerebral pode originar um conceito determinista sobre o indivíduo que é perigoso e ultrapassado.
Para me referir em conjunto às substâncias só posso dizer que elas alteram os estados emocionais e por vezes de consciência, o que em indivíduos predispostos pode ser sentido como indutor de grande prazer. Da mesma forma, um indivíduo que consuma, por exemplo, inadvertidamente, ecstasy, poderá sentir-se muito mal. Os efeitos subjectivos das substâncias são centrais. Por isso mesmo os efeitos variam conforme as pessoas e os contextos de consumo, bem como com as quantidades.




Dianova: Um dos principais problemas relacionados com o consumo de drogas, como as depressoras ou estimulantes, é a dependência que gera. A nível neuroquímico, quais os factores – genéticos e epigenéticos – que concorrem para o comportamento aditivo?
Mestre Miguel Ricou: A nível neuroquímico temos factores como a sensibilização, a tolerância, a síndroma de abstinência, a memória neurobiológica, entre outros, que condicionam e interferem com os factores de dependência. Sabemos também dos desequilíbrios de base que algumas pessoas têm e que as predispõem mais facilmente para a dependência de algumas substâncias. Está demonstrada a evidência genética da dependência para o álcool. Mas mais uma vez, devemos evitar reduzir a dependência a estas dimensões.



Dianova: Se certas substâncias químicas sintéticas são capazes de modificar o funcionamento cerebral e mesmo provocar lesões neurológicas irreversíveis (e.g. ecstasy), quais as implicações a nível de saúde mental e do indivíduo a prazo?
Mestre Miguel Ricou: Sabemos que há substâncias que podem promover o aparecimento de perturbações mentais sérias. O consumo continuado de anfetaminas, como o ecstasy, provoca perturbações muito sérias e em boa parte irreversíveis ou pelo menos com grande dificuldade nesse sentido. O álcool provoca processos demenciais precoces. As perturbações de ansiedade e do humor são outra constante e quase transversais a todas as substâncias. Contudo, também aqui devemos ter em atenção as predisposições dos indivíduos. Aliás, por vezes, a dependência constrói-se como forma de tentar aliviar a sintomatologia psiquiátrica pré-existente.


Dianova: A reeducação cognitivo-comportamental demonstra ser capaz de modificar num adulto a forma do cérebro (leia-se engrama neuronal) e consequentemente os seus comportamentos. Concorda? Na sua opinião, que factores concorrem para esta mudança?
Mestre Miguel Ricou: Estou perfeitamente de acordo consigo. Tenho para mim que esse é o grande objectivo da psicoterapia CC – é, em última análise, a modificação dos comportamentos sentidos como negativos para o indivíduo – e que tal pode ser de facto conseguido. Numa perspectiva cognitivo-comportamental o grande objectivo é procurar uma congruência entre aquilo que o indivíduo sente, faz e pensa. Este desequilíbrio é, aliás, o que caracteriza as perturbações emocionais: aquilo que eu sinto não corresponde ao que eu penso ou à situação que eu estou a viver e é isso que me faz sentir perturbado. Aquilo que se tenta fazer é uma modificação do pensamento através de técnicas como o debate cognitivo e promover comportamentos adequados aos objectivos definidos. Desta forma pretende-se aumentar o controlo emocional por parte do indivíduo.


Dianova: Por último, tendo em conta as perturbações do humor que caracterizam certos estados da dependência, qual a importância das neurociências para a compreensão dos mecanismos cerebrais-comportamentais e quais os principais benefícios do desenvolvimento desta área científica no debelar da problemática da toxicodependência?
Mestre Miguel Ricou: As neurociências são centrais para aumentar a compreensão sobre o funcionamento dos processos mentais e deste modo, também dos CA. Seja como for, acho que é importante resistir à tentação dos determinismos biológicos sob pena de se perder o essencial da intervenção em saúde no geral e na saúde mental em particular: a compreensão global do indivíduo.
Entrevista para EXIT n. 14

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2008

Entrevista ao Dr. George de Leon (Tratamento em Comunidade Terapêutica Profissional)

A Associação Dianova Portugal é uma I.P.S.S. (Instituição Particular de Solidariedade Social) e Associação de Utilidade Pública especializada na prevenção, tratamento e reinserção toxicodependências. Presente em Portugal desde 1984 como agente activo integrante da rede social, fundamenta a sua acção na convicção de que, com os meios adequados, cada pessoa pode encontrar em si mesma os recursos para alcançar o seu desenvolvimento pessoal e integração social.

Dr. George De Leon, especialista internacionalmente reconhecido no tratamento das toxicodependências, é Director do Center for Therapeutic Community Research em Nova Iorque e Professor de Psiquiatria na New York University (doutorado em Psicologia pela Columbia University)



Dianova: O que é a toxicodependência?
George De Leon: Nos EUA a toxicodependência é geralmente vista como uma perturbação ou doença. Decorrente da minha experiência, inclino-me mais para o termo perturbação. A perturbação consiste num uso compulsivo, repetitivo de substâncias, traduzindo-se em comportamentos destrutivos para o indivíduo e para terceiros. E porque há factores biológicos que podem contribuir para essa perturbação, torna-se necessária uma intervenção sobre esses comportamentos. Adicionalmente, há factores ou problemas multi-influenciadores que necessitamos de compreender ao olhar para este sintoma de falta de adaptação.

Dianova: A toxicodependência pode ser um sintoma de desadaptação do indivíduo à sociedade?
George De Leon: Eu escolho a palavra sintoma como um sinal de algo que está errado, podendo esse sinal reflectir factores biológicos, psicológicos, incapacidade do indivíduo em estabilizar-se emocionalmente, de lidar com experiências de vida que são propícias às drogas. Na última fase de adaptação à sociedade o indivíduo que explora o uso abusivo de substâncias vai enfrentar dificuldades para lidar com frustrações e exigências sociais, o que poderá levar a uma situação de adaptação ou desadaptação.

Dianova: Parece que o número de toxicodependentes na Europa está a aumentar.
George De Leon: Sabe, temos de ser cautelosos acerca de declarações deste tipo, talvez seja verdade na Europa, mas é necessário verificar primeiros os dados. Temos uma lacuna enorme nesta área e diversas formas de avaliar o aumento ou redução de toxicodependentes. Não tenho a certeza se devemos entrar na questão do crescimento ou não, digamos que está bastante disperso. E voltar a um modo alarmista de ver o problema, pelo menos nos EUA, nós não o aceitamos. A administração Bush está comprometida com a ideia de tratamento e prevenção da toxicodependência, sendo aceite como um problema de saúde social. Temos formas de analisar os custos da toxicodependência. A sociedade está claramente empenhada nesta problemática.

Dianova: Em que circunstâncias deve ser utilizado um tratamento de substituição opiácea, como parte de uma abordagem integrada?
George De Leon: A resposta é: como é utilizado? A forma como é utilizado agora nos EUA resulta de critérios mais rigorosos - ter mais de 18 anos e ser dependente de substâncias opiáceas durante dois anos - face ao critério inicial de administração após uma tentativa de tratamento falhado. Esta é a visão clássica da substituição opiácea: dois anos de consumo activo, fortes sinais de que o indivíduo era dependente e uma tentativa séria de tratamento sem drogas que não resultou, sendo então o indivíduo elegido para um tratamento farmacológico. Penso que, infelizmente, se tornou a primeira alternativa de tratamento, o que me preocupado bastante, havendo necessidade de uma gestão mais cuidadosa da sua administração.
E pondo de lado a política, a sua questão era: existe lugar para o tratamento farmacológico na abordagem do sistema? A resposta é: sim. Habitualmente começa com um cliente que não pode ser tratado, inicialmente em termos de ultrapassar algum processo de recuperação sem um auxiliar farmacológico. Eu não me importo de trabalhar com um indivíduo que alcançou o critério para esse tipo de tratamento; a minha preocupação é ter um indivíduo com metadona, podendo ou não tentar outro tipo de tratamento, tendente a uma recuperação completa. Haverá que avaliar continuamente o que os indivíduos necessitam para passar para uma próxima fase de recuperação, mesmo com metadona.

Dianova: Qual o tratamento mais eficiente?
George De Leon: Essa pergunta tem que ser reformulada se tivermos em consideração o que está na base da eficácia das principais abordagens de tratamento, que reclamam eficiência científica: um tratamento farmacológico como a substituição opiácea, como a metadona, tem uma boa base científica uma vez que bloqueia a heroína e produz resultados de melhoria a nível do trabalho, emprego, comportamento adequado do indivíduo. A C.T. é outra abordagem comprovada ao ver-se assegurado o aconselhamento ao paciente a prazo, assegurando-se um tratamento adequado, constituindo a demonstração de que é uma abordagem com provas evidentes a nível de - estratégias de comportamento, estratégias de entrevistas motivacionais, intervenções breves - que mostram que se podem conseguir melhorias significativas. O problema dessa questão é que o que sabemos claramente é que os tratamentos funcionam, sendo mais eficazes para certos indivíduos e para certas etapas da sua recuperação.

Dianova: Comente as diferenças entre o modelo Americano e o modelo Europeu.
George De Leon: Há países em que os tratamentos de substituição estão a ser melhor implementados do que nos EUA, em que manifestam um claro interesse na reabilitação psicológica e social que vai para além do que a metadona oferece. Quando se entra no tratamento em Comunidade Terapêutica, a grande distinção relaciona-se com a abordagem democrática-psicanalítica (e.g. modelo Jones, orientado às perturbações de personalidade) e a baseada em conceitos (para tratamento de dependências de substâncias). Enquanto que na Europa existe mais uma mistura dos dois; nos EUA vê-se sobretudo a abordagem de C.T., mas verificam-se alguns indicadores encorajadores de re-aproximação destas duas abordagens.

Dianova: Qual o maior desafio que se coloca à abordagem da C.T.?
George De Leon: Através da pesquisa e da experiência clínica percebemos agora que em certos tipos de perturbações um novo consumo de drogas pelos indivíduos que se encontram no processo de recuperação não é algo inesperado. A grande questão é a reorientação, o grande desafio é a recuperação do processo, não abandonarmos o toxicodependente, e porque ocorre temos que compreendê-lo. Isso pode ser utilizado para facilitar a recuperação ensinando ao indivíduo o que pode aprender acerca da sua recuperação.

Dianova: Falar em sociedade livre de drogas: um conceito sem esperança?
George De Leon: Nós devemos esperar que hajam sempre pessoas envolvidas em drogas destrutivas. Quantos? Que proporção? Se o mundo está empenhado em combatê-las? Temos uma geração inteira de que se espera automaticamente que venha a ser dependente de drogas, o que é totalmente inaceitável, não o deveríamos tolerar, dai a minha insistência no factor escola. Creio que deveríamos ser muito agressivos: enquanto a droga estiver disponível e facilmente acessível vão existir baixas. Urge encontrar melhores mecanismos, mecanismos sociais, que ajudem a construir a fortalecer a imunidade.

Dianova: Um conselho para os decisores políticos.
George De Leon: Os governantes deverão estar abertos a propostas acerca da reorganização do tratamento da toxicodependência, numa abordagem de sistema integrado. Como resolvemos a questão da droga? Há que reformular a forma como concebemos o tratamento da toxicodependência nos termos de uma abordagem de Sistema Integrado e não esquecendo a necessidade de prevenir, em particular, como nos tornamos imunes.
Esta entrevista foi realizada 16 de Setembro no consultório do Dr. De Leon, em Nova Iorque, com a colaboração de Dave Breckenride, Dianova USA. Foi publicada na edição nº 3 da EXIT, Jan-Mar de 2005.


http://www.dianova.pt/index.php?option=com_content&task=view&id=127&Itemid=131